O João (6 anos) e o Pedro (4 anos) estavam a discutir sobre um desenho que o João fez. Numa certa altura, o Pedro pega no desenho e rasga-o, deixando o João triste e a chorar. A Mãe obriga o Pedro a pedir desculpa ao João, mas ele não quer. Após várias insistências, grita-lhe “Desculpa” e sai do quarto a correr. 

 (c) Can Stock Photo

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Forçar a criança a pedir desculpa quando está transtornada não terá o efeito procurado (o de aprendizagem). Muitas vezes, o forçar de um pedido de desculpa é apenas um ato convencional que serve para que os adultos se sintam melhor, pois ele pouco faz para ajudar a criança a compreender verdadeiramente os efeitos das suas ações e a sentir de facto a necessidade de pedir desculpa.

Naquele momento crítico, o corpo da criança encontra-se em modo defesa ou luta, bloqueando a sua energia e os músculos e mantendo-os preparados para este fim. Nenhum ser vivo irá aprender algo útil neste estado. Para que o processo de aprendizagem tenha lugar de forma consciente e eficaz, precisamos de estar calmos e abertos, interessados e atentos.

Em vez de obrigares impacientemente o teu filho a pedir “desculpa” no momento, põe esta ideia  em pausa e quando todos estiverem mais calmos e as energias voltarem ao normal, aborda o assunto de outras formas para que os resultados sejam mais eficazes:

  • Ajuda-o a compreender as suas emoções e sentimentos.
    Em primeiro lugar, deixa a obrigação do “Desculpa” e qualquer tipo de sermão de lado. Se o teu filho ainda é pequeno, ajuda-o primeiro a esclarecer e expressar o que estava a sentir, colocando as emoções em palavras. As crianças pequenas precisam de apoio e orientação para identificar e dar nomes aos sentimentos que sentem, pois são de tal forma confusos e avassaladores que ultrapassam as suas capacidades cognitivas e geram medo.
    Se for um pouco mais crescido, faz-lhe perguntas que o ajudem a compreender as suas emoções e o resultado das suas ações. Começa por perguntar sobre: “O que estavas a sentir quando rasgaste o desenho do João? O que achas sobre o que fizeste?“. Estas perguntas ajudam a esclarecer que, enquanto é natural sentir-se chateado, frustrado ou triste,  os comportamentos escolhidos para se manifestar tiveram um resultado que não é aceitável.
    Depois, em ambos os casos promove a empatia, juntando os sentimentos à consequência que a ação teve na outra pessoa. “Como pensas que o João se sentiu quando lhe rasgaste o desenho?
  • Foca-te na solução.
    É muito fácil cair na tentativa de parar o comportamento ou resolver a situação no momento, obrigando ou castigando. Esquece o castigo e, em vez disso, foca-te nas soluções para emendar, perguntando: “O que podes fazer para emendar o que se passou?” Convida a criança a refletir, deixa-a pensar e a dar ideias sobre o que quer oferecer ou fazer. Um pedido de desculpas verbal é uma forma de começar, mas não é obrigatório que seja isto. Pode ser, por exemplo, um ato de bondade como ajudar a emendar o que ficou rasgado ou fazer um novo desenho para oferecer.
  • Ajuda-o a ensaiar melhores formas de reagir
    Dá ao teu filho uma oportunidade de tomar uma decisão melhor da próxima vez que sentir a necessidade de “rasgar um desenho”. Pergunta: “Se pudesses fazer tudo de novo, o que farias diferente?” Dá-lhe tempo para ele pensar e façam juntos uma lista de ideias construtivas para lidar com esta emoção. Ajuda-o a ensaiar, pois será muito mais provável que ele venha a usar algumas destas ideias da próxima vez, se já tiver tido a oportunidade de as praticar contigo primeiro.
  • Dá o exemplo
    O teu próprio exemplo é a lição mais eficaz e poderosa que podes dar ao teu filho. Quando fazes algo para qual precisas de lhe pedir desculpa, dá o teu melhor, faz o que gostavas que ele fizesse – olha-o nos olhos, pede desculpa com seriedade e respeito, explicando que compreendes que o teu comportamento ou as tuas ações possam ter provocado mau estar nele e oferece-te para emendares a situação. “Peço desculpa por ter gritado contigo. Foi injusto da minha parte ter reagido assim. Deves ter-te sentido assustado e triste. O que posso fazer para te sentires melhor?

Embora pode ser difícil no início, seguir estes passos, com o tempo, traz maior compreensão das próprias ações e os efeitos que tem nas outras pessoas, maior responsabilidade pelo comportamento próprio, o desenvolvimento da empatia e um pedido de desculpas muito mais sincero e sentido.

Gabriela

P.S Convido-te a deixares um comentário abaixo e contares-me sobre a tua opinião acerca dos pedidos de desculpa e sobre como podemos encorajar o desenvolvimento de práticas equilibras e saudáveis neste sentido.


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