Fonte: MS Office

Entre o primeiro e o segundo ano de vida, uma criança concentra a sua energia em exercitar os seus músculos para descobrir o mundo em seu redor.

A mobilidade é excitante, há tanto para descobrir, para ver, para experimentar. Consegue finalmente ir a sítios onde antes só podia chegar se fosse levada pelos outros. Agora consegue ir para lá sozinha. Consegue ir mais depressa ou mais devagar. E é ela que decide.

Consequentemente, é uma altura em que este pequeno ser ganha consciência de duas coisas fundamentais para a sua vida:

  • o seu ego (“eu existo”)
  • a sua vontade (“eu posso”).

Ao conscientizar estas ideias e ao pô-las em prática, a criança testa naturalmente a sensação de separação dos pais, já que se consegue afastar deles a andar ou a correr, conforme ela quer. E adora brincar ao afastar-se e voltar. Adora testar os seus próprios limites, para ver até onde consegue ir e o que é que pode descobrir. E esta avalanche de sensações e emoções é fenomenal.

A reação dos pais nesta altura (e mais tarde também) é fundamental e decisiva e vai deixar marcas profundas a longo prazo, esculpindo os primeiros traços do caráter do futuro adulto:

  • reagem a partir de medo“Não corres que vais cair.”, “Fica aqui. Não consegues ir lá sozinho.”, “Não trepas a vedação que te magoas.”, “Não te afastes que é perigoso.” 

    Estas mensagens transmitem a ideia que o mundo é perigoso e inseguro, que a criança é indefesa, que é fraca e que não se deve afastar dos pais se quiser “viver” (algo em oposição com o próprio objetivo natural de crescimento dos filhos – a independência dos progenitores, certo?). Quando reagimos a partir do medo, ensinamos à criança que deve inibir e contrariar qualquer vontade ou desejo que tenha de explorar seja o que for longe dos pais, porque “é perigoso e inseguro”.

    Fonte: MS Office
    Fonte: MS Office

    E quando recebe estas mensagens diariamente, de forma consistente, a criança deixa de viver a sua vida tranquilamente e passa a viver num mundo contrariado e cheio de medo, com medo do seu próprio medo incutido do exterior e cuja razão não compreende. Deixa de crescer ou evoluir, atordoada pela possibilidade de algo correr mal.

    Porquê? Porque quando a criança associa “vontade de explorar” com “sou fraco, não sou capaz ou explorar é perigoso”, mensagens que recebe da comunicação alerta e assustadora dos pais, cria-se uma contradição interna, um bloqueio entre o seu desejo inato e o abafar deste mesmo desejo pelo medo.

    A segurança própria é obviamente uma necessidade básica inata de qualquer ser vivo e tem prioridade antes de tudo o resto. Quando vivemos num ambiente de medo e insegurança, o nosso equilíbrio interno é comprometido e o nosso crescimento para (não há tempo nem energia para isso). O nosso ser (seja criança ou adulto) entra em modo de alerta, “lutar ou fugir”, e direciona toda a nossa energia para assegurar a sobrevivência e segurança, deixando tudo o resto para o lado. Neste caso, a curiosidade e vontade de explorar deixam de ser importantes, dando lugar à inatividade que, por oposição, trará segurança e sobrevivência.

    A mensagem de medo e insegurança incutida nos primeiros anos de vida, resulta em bloqueios a níveis profundos quando a criança atinge a maturidade. Estes bloqueios podem influenciar de forma consciente ou inconsciente, o caráter e as decisões que o adulto irá tomar na sua vida.

  • reagem a partir de confiança“Queres ir buscar aquele brinquedo lá ao fundo? Vai lá. Tu consegues!”, “Subir esta caixa deve ser divertido. Força.”, “Oh, caíste. Estavas a tentar subir e escorregou-te o pé. As vezes acontece. Sabes que já me aconteceu também? E sabes o que fiz? Levantei-me e tentei outra vez, até consegui subir.”

    Estas mensagens transmitem apoio e confiança. Criam conexão.

     (c) Can Stock Photo
    (c) Can Stock Photo

    Transmitem a ideia que é seguro e interessante explorar o mundo e que nós, os pais, confiamos nas capacidades do filho, encorajando-o assim a confiar nas suas capacidades também.

    Uma criança confiante procura desenvolver-se e tornar-se melhor no seu caminho de autonomia e independência.

    Obviamente que existem perigos e perigos, e agir com confiança não quer dizer permissividade total, desinteresse, indiferença ou abandono. Há que ter algumas regras e limites, que os pais podem explicar com calma e com palavras adequadas para a idade de cada criança. Ou não dizer mesmo nada, apenas estar perto e acompanhar, encorajando sem interferir ou manifestar os próprios medos. Explicar limites e a razão por trás dos mesmos ou acompanhar de perto é muito diferente de transmitir mensagens que incutem o medo e inibem qualquer ação.

    Existem muitas formas de permitir que uma criança pequena explore livremente e à sua vontade o espaço a nossa volta, estando os pais por perto a observar responsavelmente (mas sem entrar em pânico): no parque – numa altura do dia que tenha menos confusão, numa rua sem trânsito, num jardim, num campo, numa biblioteca, num cantinho mais resguardado da praia… E se não haver nenhum sítio que consideramos “seguro” em nosso redor, que tal procura-lo noutros espaços ou encontrar outra forma de proporcionar esta experiência ao nosso filho?

    Quando queremos, encontramos forma.
    Quando não queremos, encontramos desculpas.

    Confiando nos nossos filhos desde cedo, criamos marcas positivas e fundamentais para toda a sua vida:

    • Valorizo a liberdade e a vontade de explorar, mesmo que por vezes tropeço. “Ao explorar posso tropeçar e até cair, mas isto é apenas mais um passo da minha caminhada. Estou livre de avançar e de continuar a exploração.”
    • Cair não significa falhar. “Quando caio, a minha exploração para por uns instantes, mas pode continuar. Quando algo acontece, devo concentrar-me em ultrapassar o obstáculo e continuar a caminhar, em vez de ficar a lamentar que caí e culpar os outros pela minha queda. Cair e levantar faz a exploração mais interessante.”
    • Querer e seguir o meu desejo é algo bom. “Fico feliz e sinto-me bem comigo quando consigo experimentar algo que quero e que gosto. Sinto-me confiante quando consigo realizar os meus desejos e explorar livremente. Os meus pais estão ao meu lado. Eles confiam em mim e eu também.”

Quando depositamos confiança nos nossos filhos, aumentamos a reserva de autoconfiança e autoestima deles. E ensinamos que os seus desejos são importantes para nós, são sempre ouvidos e respeitados. E criamos bases sólidas para a estrutura de resistência do futuro adulto.

Gabriela Paleta