Hoje quero partilhar com vocês este capítulo do Rudolf Dreikurs que escreveu há cinquenta anos atrás, sobre o sucesso pessoal e sobre os valores sociais errados que promovem o desequilíbrio e a falta de harmonia do ser humano.
Deixo aqui uma cópia do capítulo sobre este tema, da sua colectânea de textos “Psicodinâmicas, Psicoterapia e Aconselhamento” 1967. 
 
“Assim como temos o desejo de ter razão e de estarmos certos, temos a preocupação de sermos bem-sucedidos. Na nossa sociedade, o sucesso pessoal é muito valorizado, e a falha é condenada. Por essa razão é muito encorajado o desenvolvimento na vertical.

A ambição de ter sucesso é provavelmente a estimulação social mais espetacular do nosso tempo. Muito poucos percebem o enorme custo que devem pagar por este valor social falso. Inoculamos em cada criança a convicção de que tem que ser melhor, ter mais, porque senão não será bom, será um fracasso. Mas para cada criança que pode satisfazer essa hiper-ambição de forma útil – social, acadêmica, atlética – existem milhares de crianças que não têm a oportunidade de se sentirem importantes, significativas. Estes ou desistem ou se viram para o lado inútil.

Os maiores fracassos são o resultado do desencorajamento inevitável que aparece se a confiança na habilidade de alguém não se mantém na mesma linha com o ideal de si mesmo, com o que a pessoa deve ser ou fazer. A maior parte dos criminosos e deliquentes juvenis são vítimas de uma ambição pervertida que lhes é inspirada por uma sociedade vida de prestígio. Eles sentem-se importantes apenas se quebrarem a lei e se alimentam uma “batalha” contra a sociedade e seus representantes.

O movimento na linha horizontal não oferece nenhuma sensação de sucesso pessoal, nem a tortura do fracasso. Quando alguém dá o melhor de si, não pressupõe a comparação com os outros, nem a dependência das opiniões dos outros, da sua aprovação ou desaprovação.

Todos gostam de aprovações, mas a pessoa livre, certa do seu próprio valor, não depende delas. Os nossos pacientes precisam de aprender a liberdade interior, sobre a qual Alfred Adler falava ao seus alunos quando lhes dizia que não devem ter um interesse pessoal em tudo o que fazem. Se tudo correr bem, ainda melhor, se não correr bem, devem continuar a andar. Se nos sentimos derrotados, a nossa capacidade de avançar é seriamente afetada, mas ninguém, além de nós mesmos, nos pode fazer sentir derrotados.

O fracasso em realizar o que nos propomos pode ser uma experiência importante e uma parte do processo de aprendizagem. Mas para isso é necessário não o considerar como um resultado da nossa falta de valor pessoal ou competência. Precisamos distinguir entre ato e ator. O que fazemos pode ser mau, estúpido, mas isso não significa que nós somos maus ou estúpidos. Por enquanto, a sociedade não nos ensina esta lição, mas a psicoterapia não pode continuar a ensinar sem ela.”

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