Todos os dias me deparo com este grande paradoxo que ainda paira nas nossas cabeças de Mães e Pais (e até avós, educadores, vizinhos e outros amigos bem-intencionados).

Uma dicotomia entre a educação que damos e a que queremos dar.
Uma espécie de “to be or not to be?” da parentalidade. O início do nosso caos e falta de harmonia.

Por dentro, lá no fundo, quando pensamos nisso, todos desejamos filhos independentes, com alta auto-estima, com garra e determinação, capazes de se tornarem adultos bem-sucedidos.

MAS… há aqui um más… enquanto são pequenos e estão ao nosso cargo, queremos que obedeçam à primeira, que façam tudo que lhes pedimos sem refilar, que se comportem assim como nós queremos e que, de preferência, não se manifestem muito, para não darem muito trabalho.

Ou seja, pensamos uma (a longo prazo) e queremos outra (agora mesmo). Uma dissonância tremenda entre o que desejamos e o que escolhemos fazer no dia-a-dia. Uma discrepância que tem a sua consequência sobre nós mesmos como pais e sobre os nossos filhos (sobre isso irei falar noutro post).

Não sei o que entendes por filho independente, por exemplo, mas queria falar-te sobre o que eu entendo. Entendo que é uma pessoa que pensa por ela própria, que tenha a liberdade necessária para o fazer, que tenha o direito de expressar aquilo que sente quando considera necessário, que tenha liberdade para agir de acordo com as suas competências e capacidades, que tenha direitos e deveres sobre os quais pode opinar e conversar, que tenha o direito de se recusar a fazer algo se não lhe parece bem ou não quer, e que, acima de tudo, compreende que as suas ações podem ter vários tipos de consequências e que deve assumir a responsabilidade pelas mesmas.

Estimular a independência dos nossos filhos é algo que dá trabalho. Se dá!!! Algo que não se consegue de forma sustentada e saudável exigindo constantemente que nos obedeçam à primeira em tudo, mandando-os fazer o que nos apetece, quando nos apetece ou impondo a nossa opinião como lei, sem abertura para diálogo e flexibilidade. Educar para a independência exige atenção e compromisso, determinação e muita calma e paciência para ensinar. Não se consegue com autoridade, controlo, limitação ou proibição de tudo e qualquer desejo ou ideia que não consideramos adequada.

Desafio-te a fazeres o seguinte EXERCÍCIO DE PENSAMENTO.
É simples e bastante esclarecedor:

Começa por deixares o teu papel de Mãe/Pai e por-te no papel de FILHO, do teu filho/filha. Imagina-te a ter a mesma idade, a mesma experiência, a vestir a mesma roupa, os sapatos, a ter a mesma personalidade, os mesmos amigos, a mesma vida e… os mesmos Pais que ele/ela tem.

Depois, imagina-te, a partir desta postura e idade, a ouvires a tua Mãe/Pai (TU, antes do exercício) a falar contigo, da mesma forma como TU costumas fazer com os teus filhos todos os dias. Só que desta vez estás a ouvir e receber os teus próprios sermões, em vez de os dares, a ouvir os teus pedidos, as tuas exigências, a tua forma de falar, os teus ensinamentos – com o teu tom de voz e a tua linguagem corporal, enquanto pensas provavelmente na tua própria vida de criança.

Estás do outro lado de ti mesmo…

O que pensas? O que sentes?
O que é que estes sentimentos despertam em ti?
O que te dá vontade de fazer a seguir? Será que dás razão aos teus pais, ficas frustrado e queres defender-te ou encolhes os ombros e esperas que passa, enquanto pensas noutra coisa?

Educar filhos independentes implica sim que eles vão questionar a nossa opinião (e espero que a façam muitas vezes). Implica que vão pensar em alternativas ou formas de fazer diferentes das nossas. Implica que virão com ideias novas e arrojadas, que vão querer testar em prática. Implica que nos vão desafiar e nos vão colocar questões que nunca nos passaram pela cabeça. Implica que tenham o direito de recusar quando lhes pedimos algo. Implica que tenham o direito de serem preguiçosos por vezes (nós também gostamos). Implica que tenham o direito de terem o seu próprio ritmo, embora esse não seja igual ao nosso. Implica que demore algum tempo até aprenderem a lidar com as consequências das suas ações e até encontrarem o seu caminho entre bem e menos bem. Implica que NÓS – os Pais – tenhamos muita paciência e muita calma enquanto eles cresçam e aprendam.

Sim, o processo é esse mesmo. Ser independente é algo que se aprende praticando, experimentando, não vivendo em limitação e obedecendo sempre. Aprende-se caindo por vezes e levantando. Aprende-se errando e continuando. Aprende-se sendo bem-sucedido e celebrando.

E o nosso papel de Pais é estarmos lá a acompanhar, a apoiar, a encorajar, a confortar, a levantar, a limpar as lágrimas e a lembrar que há novas tentativas, a festejar as conquistas e a celebrar o crescimento.

É isso.. e assim, reduzimos o caos e fazemos espaço para mais harmonia.


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